Desintermediação do transporte

Palavra que está cada dia mais em moda no mundo empresarial, a desintermediação já atinge diversos setores da economia e também já começa a influenciar no segmento do transporte. As empresas buscam reduzir os custos e otimizar os ganhos cortando intermediários e agindo diretamente em alguns setores. Embora o transporte ainda não esteja sendo afetado com tanta força, já é possível notar uma tendência em indústrias que preferem contratar direto o transportador e agir mais rápido na área da logística. Mas antes de qualquer coisa é preciso entender o que é desintermediação.

A palavra complicada tem, teoricamente, um significado bastante simples e que o próprio nome já dá a entender: cortar os intermediários e agir diretamente no setor desejado. É o processo que consiste na aproximação da empresa ou indústria com o consumidor final, sem a necessidade de intermediários. O exemplo mais claro para elucidar o que esse termo estranho quer dizer, fora do setor do transporte, é a ação da Apple. Com a criação das próprias lojas, a indústria cortou o intermediário – no caso, o varejista – e atua diretamente com o mercado consumidor final.

Quando falamos em desintermediação, podemos entender a transportadora como intermediária entre a produção e o consumo. Afinal de contas, seja na indústria, agricultura ou serviços, o transporte é necessário para levar o produto da fonte original até o cliente. Existe uma tendência em grandes empresas – que pode ser herdada por negócios menores futuramente – de investir em uma frota própria, cortando a transportadora na cadeia de produção e, eventualmente, reduzindo os custos com contratos caros para o transporte da própria produção. Isso porque deixando de terceirizar esta etapa, é possível negociar prazos, estudar melhores rotas e otimizar a logística, o que parece atraente para os empresários, que estão sempre buscando cortar custos e aumentar os lucros.

Outro conceito que também soa estranho, mas é de fácil entendimento, é a primarização: basicamente, o contrário de terceirização, o que também vem se tornando comum nos últimos anos dentro do setor do transporte. As próprias transportadoras atuam desta forma. Indústrias costumam celebrar contratos com empresas desse ramo para levar seus produtos aos mercados consumidores. As transportadoras, por sua vez, disponibilizam a própria frota para fazer estas entregas, mas, muitas vezes, também procuram profissionais autônomos que possam fazer o frete em nome da transportadora – ou então, motoristas que tenham o cavalo mecânico e possam levar determinadas carretas em casos em que a frota da transportadora não seja suficiente, ou esteja comprometida com outros serviços.

A partir deste processo, que é relativamente comum, o gestor de logística de qualquer indústria pode começar a avaliar qual a possibilidade de cortar este intermediário: se a empresa responsável pelo transporte está contratando autônomos, porque a própria indústria não se responsabiliza por esta etapa e garante um lucro maior (já que não haverá a margem para o contratante)? É claro que tudo depende do tipo de carga que será transportada, mas em casos mais simples, em que não há muitas especificidades a ser adotadas (transporte de líquidos perigos ou produtos químicos, por exemplo), a chance de haver desintermediação e primarização aumenta.

Implantar este processo dentro de qualquer empresa não é tarefa simples, a começar pela captação de motoristas. O mercado costuma ser informal, sem um ‘cadastro nacional de motoristas’ ou algo que permita ao gestor de logística encontrar com mais facilidade profissionais para atuar nesta área. Saber conversar com o motorista – o que as transportadoras já sabem fazer há anos – também surge como obstáculo a ser superado na hora de primarizar o setor e o contato adequado com o motorista também dirá muito sobre o futuro sucesso da operação.

Além disso, é preciso convencer o grupo diretor da indústria de que vale a pena investir nesta área. Principalmente porque será preciso abrir um novo Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) para que a empresa seja habilitada a operar também como transportadora. Uma apresentação clara de toda a economia gerada com o novo processo é essencial para demonstrar aos diretores a importância de se adotar a primarização.

O gestor desta área também precisa ser capaz de avaliar a qualificação de motoristas para montar uma equipe com capacidade e competência. Além, é óbvio, da carteira de habilitação, é importante verificar algumas condições que vão mostrar se o profissional encontrado está capacitado a exercer a função para a qual será contratado. Um motorista profissional pode ajudar até mesmo a economizar, já que ele tomará mais cuidados com o caminhão e poderá evitar eventuais problemas mecânicos, garantindo mais durabilidade aos veículos.

A empresa também pode promover treinamentos de direção defensiva para mudar alguns ‘vícios’ de motoristas que estão na estrada há muito tempo. Além de trazer mais qualidade ao serviço, também aumenta a segurança no transporte da carga. Orientar os motoristas a seguir as políticas de segurança da empresa também são importantes para garantir que ele tomará cuidado ao exercer sua função, evitando acidentes que vão gerar prejuízos financeiros e, em casos extremos, até mesmo a morte de um profissional.

A qualificação de motoristas também passa por treinamentos em situações de emergência, principalmente em casos de transporte de cargas perigosas ou que possam oferecer danos ao meio ambiente, assim como a certificação pelo Sistema de Avaliação de Saúde, Segurança, Meio Ambiente e Qualidade (SASSMAQ). O gestor também precisa se certificar de que sua equipe terá condutas éticas e profissionais, afinal de contas, a empresa precisa ter confiança de que o profissional agirá de forma a aumentar a produtividade da empresa e evitará casos de furtos e roubos.

A desintermediação do transporte exige a superação de muitos desafios e é possível ser adotada em qualquer segmento – seja na agricultura, bens de consumo ou em diversos tipos de indústria. A questão que deve ser avaliada é qual o custo que será necessário para que o serviço seja primarizado e o quanto isso trará de economia para a empresa como um todo. É preciso muito estudo, avaliações precisas e cuidado na tomada de decisões para evitar prejuízos e tropeços que podem influenciar no crescimento e no desenvolvimento da indústria. Também vale a pena consultar outros empresários do mesmo ramo que optaram pela desintermediação para conferir como foi a experiência e avaliar os riscos e vantagens de se adaptar a este serviço.

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